Janeiro 29, 2012

Ponto

O meu maior medo é a dor…
A minha maior dor é o medo…
O meu pior momento é o que sobe e fica estático,
Que cobre e descobre que volta e revolta…
O meu maior medo vem da dor
Da dor de ter medo, de cegar e parar
De correr e andar, de sentir e gritar
De sofrer e parar!

O meu pior momento é o fim
Que nem principio de tudo e nada!
É cegueira de branco e vazio, escuro gelado e perene!
É rasgar os pedaços de tempo e esquecê-los no tempo da mesa…

O meu maior medo é o medo em si…
Em mim, de mim e por mim!
A minha maior dor é da dor de olhar em frente e ver o fim…

texto|foto  rui marques

Outubro 19, 2010

Elogio a uma triste nota que se soltou

Ao longe sente-se o desespero de uma causa
ou sem causa
ou simplesmente será esta humidade no ar que me assalta
e sobressalta
e me faz sentir que a noite já vai longa demais...
Já há muito que me senti invadido por este triste ser
que de tão pouco ser
deixou de o ser...

Opto apenas por dizer que se for assim em diante
prefiro não ir
não estar
não saber
não ser

Porque se este triste ser que me ocupa
e preocupa
não me deixar
deixo-o antes ir
e assim opto
simplesmente
por ser
estar
saber
viver
e quem sabe um dia recordar...

Por agora, não sinto...
Por agora, apenas me encontro o mesmo
acompanhado pelo vazio
e pela circunstância de não o estar...
Por agora, prefiro não pensar...
Por agora...

texto | rui marques
imagem | Hidden-target > http://hidden-target.deviantart.com/

Março 28, 2010

Amanhã

Parece que naquele dia as noites seriam outras
mas no entanto ele remava desnorteado rumo ao destino do seu desejo...
Há já muito tempo que lhe surgiam no pensamento rumores desse seu fado
impertinente, impetuoso e quiçá um pouco obstinado.
Quis a sorte, ou talvez não, que nesse dia se cruzassem no mesmo plano
no mesmo olhar, na mesma gota de suor
nos seus pequenos mundos.
Pareceu-lhes que naquele dia as noites seriam todas no mesmo tom,
no mesmo timbre
na mesma página!
Num seco "olá" embrulharam-se em novelos de contar e recordar momentos
como se naquela noite coubessem tantos dias
dos quais já pouco ou nada se lembram
ou porventura nunca os teriam deixado de viver.
No alto daquelas horas observam-se curvados perantes os seus espectros
e todo o caminho percorrido até ao dia em que seriam noites.
Sentados frente a frente entrelaçam as mãos numa mistura difusa
de suor frio e rubor...
"Porquê?" questionam-se silenciosamente sem o dar a conhecer ao outro...
Pareceu-lhes, então,
naquela fracção de segundo que ambos já sabiam a resposta...
Parece-me que naquele dia
todos os outros seriam noite
e eles apenas queriam ver...

texto | rui marques
imagem | phenomdesire>brightness tomorrows @ deviantart.com

Outubro 30, 2008

Independente


Pé ante pé, com toda a inocência que lhe era imputada,
desceu as escadas naquele dia igualmente similar aos outros
em busca do seu mundo perdido ou qualquer incerto dado como adquirido.
Fosse como fosse, as expectativas eram baixas à partida,
não que isso lhe causasse algum incómodo.
Os raios de sol que penetravam pela folga entre o soalho e a velha porta
iluminavam-lhe o pensamento, terramoto de ansiedade mista de medo e curiosidade,
guiavam-lhe a marcha para o seu próximo passo...
No último degrau da escada, baqueou...
Num terno bailado em câmara lenta, admirou toda aquela existência
que lhe estava adstrita, como se fosse a primeira vez que a observava
e seria, tão só, o inicio de uma ténue recordação de vida...
E aí foi assolada pelos risos, as quedas, as quezílias, os confrontos
os beijos, o cheiro a comida acabada de fazer...
Lembrava-se perfeitamente do dia em que as esqueceu
mas nunca o assumiu perante a sua imagem...
O passar da estória troa pungente ao ritmo do tic-tac do velho relógio de parede
e explode dentro de si um suspiro de coragem e destino
à medida que lentamente reinicia os seus passos pelo velho soalho de madeira!
Já o sabe ela, que encontrou o seu mundo perdido e vai, segue, confiante rumo a ele...
A sua presumida inocência... Morreu!

texto rui marques
foto The Door by Bob-da-Cat>www.deviantart.com

Agora

A esta hora sei que sou eu,
que aqui te escuto nos desabafos e desaforos
em que dos nossos negros, fazemos tesouros
e que dos nossos males transformamos em ouros...
Naquela hora devo ter sido eu
a aconchegar-te no negrume do momento,
nas profundezas do pensamento
e a acreditar que aquela lágrima fugidia era única!
E que, mesmo que o não fosse,
não mais a irias recordar por tão breve e insípida...

Na próxima hora quero ser eu!
Quero ser eu a amparar os ventos que sopram,
a provar os sabores que amargam...
Da próxima hora quero ser eu
aquele que guarda o tempo no bolso do fundo,
aquele que sossega a maré do dia-a-dia
e que pinta o brilho no quente do Sol...
A toda a hora espero ser eu
a entrar no olhar triste,
a separar toda a sua expressão magnânima
e deitar o prescindível fora,
para agarrar somente nesse olhar
a vontade de ficar aqui agora
e assim, quem sabe um dia,
acabar por ficar a toda a hora...


texto rui marques
foto Secreth path by *WiciaQ>www.deviantart.com

Outubro 12, 2008

A Janela


Ao longe, a respiração ofegante da planície tolda-lhe o sentir da paisagem
ocultando-lhe, lentamente, todo e qualquer vislumbre do que o rodeia
do que o envolve, do que o compõe...
As nuvens difíceis desabam os seus pensamentos no que resta da sua consciência terrena
e que, sem sequer se saber muito bem como, o colocou ali...
Naquele preciso instante!
Naquela janela de tempo!
Naquela imensa redoma asfixiante...

Soubera ele que a música que o transportou naquele preciso momento,
ninguém a escutaria senão ele
e desenfreadamente agarrar-se-ia a toda a uma vida de conhecimento
que não seria senão pó
e de nada lhe servia a não ser para se arrepender
de o ter tomado como seu
grão a grão...

Aquela planície que o envolve, suada, orienta-lhe o caminho
e no entanto ele não o sabe, nunca soube
nunca o saberá...
Porque o magnetismo da bússola da sua mente secou aos primeiros raios de sol...
Estagnou!
Desertou...
E assim, ficou para sempre só
num clímax esfuziante de ter encontrado todo um sentido para si
no preciso momento em que se perdeu!
E isto tudo, enquanto a velha janela de madeira se encerrava sobre si...

texto rui marques
foto janela by rafajija > www.deviantart.com

Junho 05, 2008

Os dias de hoje

A Amizade em si, tal como o preço da gasolina e tudo o resto,anda em crise, minhas senhoras e meus senhores!
Ou então talvez não...
Se calhar os "Amigos" dos nossos "Amigos" ficam automaticamente ligados a todos nós nessa "Amizade" cristalina e fusca mesmo que não tenham vivido toda uma miríade de situações que nos fez tratar e pensar de cada um de nós o seguinte:
- Eu e tu somos Amigos!
E as aspas que vão passear... Ou para o caso, que vão arranjar novos "Amigos...


pensamento rui marques
imagem Broke by ~Vampunk1111

Até...


Mais um dia passou
por entre estes mil e outros que fazem a nossa história...
Mais um dia em que a distância vence
mas nem a nós nos convence que será sempre assim...
Já há algum tempo que devia ter falado contigo,
que devia ter vindo até ti...
No entanto, gradualmente, fui-te substituindo na minha vida
e parece-me que, hoje em dia, isso será difícil de alterar
pois sempre pensei que, na nossa vida, nada é insubstituível
desde que haja sempre algo, ou alguém, melhor!
E, sinceramente, confesso-te... Não me apetece!

Aos momentos de solidão cerrada e escura
diz-lhes, se porventura os vires, que não os quero!
Aos dias e dias de conversas esquizóides apenas comigo
(ou sabe-se lá mais com quem...)
diz-lhes para ficarem bem...
Para mim chega de todo o negrume,
de falésicas quedas, de vertiginosas ideias...
Basta!
Sabes, troquei-te pela minha companhia
e neste momento, tenho-a bem aqui...
Pena é que esteja longe...


texto rui marques
imagem Together by niavaah>www.deviantart.com

Março 10, 2008

Agorafobia

Sinto-te respirar bem dentro de mim...
a cada inspiração-expiração cadenciada
perfumas a minha forma de ser
fazes-me de novo outra vez!
Entregas-me à esperança...
Sorris-me...

E eis que todo o mundo
observa e comenta
este Sol mais que sol,
esta estrela tão mais que estrela,
a luz que me guia e ilumina
e basta!
Apesar de tudo, lá fora o dia está bem cinzento...
Mas o que é que isso interessa?

texto | rui marques
foto | in the rain by parejka > www.deviantart.com